Crônicas Do Fim Do Mundo

Crônicas Do Fim Do Mundo

Sinopse

E se as histórias secretas de pessoas aleatórias fossem reveladas?"Crônicas do Fim do Mundo" é um projeto que constrói narrativas curtas com um toque de suspense noir.Escrito e produzido por Caio Salgado. Leia essas e outras crônicas no Medium, acessando o link: https://goo.gl/tIGy6pComentários, críticas e sugestões: caio@chsalgadofoto.com.br ou pelo Twitter: @chsalgado.

Quem ouviu esse, ouviu também:


Episódios

  • [S01E07] Um Homem Normal
    [S01E07] Um Homem Normal
    Duração: 03min | 28/10/2015

    O episódio "Um Homem Normal", de "Crônicas do Fim do Mundo" foi produzido por Caio Salgado. Comentários, críticas e sugestões: caio@chsalgadofoto.com.br ou pelo Twitter: @chsalgado. Leia essas e outras crônicas no Medium. Acesse o link: goo.gl/tIGy6p Transcrição Sete horas. Estaciono meu carro absolutamente normal em frente à padaria. Eu sou uma pessoa convencional, daquelas que gostam de pãezinhos quentes com manteiga e café com leite servidos em copos americanos. Quem me observa, sentado no balcão e tomando meu café, vê um indivíduo comum, com contas para pagar, plantinhas para regar e um trabalho banal, que vai sugar minha energia e me levar a uma aposentadoria medíocre. Quando eu tinha oito anos, vi uma menina, mais ou menos da minha idade ser atropelada. Ela pediu ajuda. O motorista pediu ajuda. A única coisa que consegui fazer foi ficar ali, parado, observando suas últimas expressões, seus gemidos de dor. Não sei se a menina entendia toda a vida de alegrias, festas, sofrimentos e normalidades que ela estava perdendo. Eu não entendi muito bem o que acontecia. Segui sendo mais um. Agora, eu tomo café, como pão com manteiga e assisto ao jornal da manhã. A primeira notícia mostra um plano detalhe de um homem baleado no pescoço. O sangue escorre e encharca a mão dos paramédicos. O balconista não consegue piscar. Ele chama o padeiro, que para em frente à tela. Segundos depois, uma dezena de pessoas está ali, zumbificada, paradoxalmente não acreditando e querendo mais daquelas imagens, que se repetem em loop. É isso que eu faço: cruzo a cidade à procura do que apenas eu sou capaz de registrar. O som das sirenes e os gritos desesperados são o café na caneca que sua mãe te trouxe de souvenir do Chile e o fone de ouvido que toca música indie enquanto você fecha mais um relatório. Quando a âncora chama a previsão do tempo, todos voltam a seus dias ordinários. A imagem da menina coberta daquele líquido vermelho me fez não vomitar nem sentir nojo ao ver intestinos saindo de dentro dos corpos de pessoas acid

  • [S01E06] A Garçonete
    [S01E06] A Garçonete
    31/08/2015

    O episódio "A Garçonete", de "Crônicas do Fim do Mundo" foi produzido por Caio Salgado. Comentários, críticas e sugestões: caio@chsalgadofoto.com.br ou pelo Twitter: @chsalgado. Leia essas e outras crônicas no Medium. Acesse o link: goo.gl/tIGy6p Transcrição Há erros que não podem ser cometidos... Nunca acreditei em sorte, ou nas oportunidades que a vida dá. Mas eu não sou a melhor pessoa para contar histórias de sucesso. Afinal, gente como eu nasce para servir e se aproveitar, como ratos, dos restos que animais superiores deixam cair pelos cantos. Esses restos compram a nossa fidelidade. O medo de perdermos a relação de comensalismo que nos mantém nos leva a fazer tudo o que o grande animal ordena. De comprar docinhos para o aniversário de sua avó a seguir garçonetes, que saem do trabalho carregando sacos de papel que não deviam estar mal escondidas por baixo de um sobretudo. A cafeteria, que agora é uma cena de crime, abriu suas portas para mais pessoas durante o dia do que recebe clientes em uma semana inteira. Em dias assim é fácil observar e identificar quem está escondendo alguma coisa. Quando, de cinco em cinco minutos, uma jovem abre a porta de vidro para fumar, você tem um perfil. Em oito horas, foram exatamente vinte cigarros. O último, acendido ao fim do expediente. Ela joga o maço vazio na lixeira, coloca o capacete e sobe em sua vespa vermelha. Seus cachos amarelo ouro se escondem por baixo do capacete. Essa vida de garçonete deve ser uma merda, mesmo. Se eu ficasse servindo cafezinhos de trás de um balcão eu certamente me apegaria à primeira chance de sair dessa vida. Mas é tanta inocência pensar que ninguém viria atrás daquele saco de papel? Ela passa pelas lombadas sem desacelerar. Não procura refúgio. Dirige-se diretamente para a saída da cidade. Os cigarros alimentaram-na durante o dia. Agora não mais. Ela estaciona no primeiro posto de gasolina à beira da rodovia e se encaminha para o restaurante. De longe, posso vê-la, através do vidro. Coitadinha, está tão encantada com o

  • [S01E05] Inocente
    [S01E05] Inocente
    11/08/2015

    O episódio "Inocente", de "Crônicas do Fim do Mundo" foi produzido por Caio Salgado. Comentários, críticas e sugestões: caio@chsalgadofoto.com.br ou pelo Twitter: @chsalgado. Leia essas e outras crônicas no Medium. Acesse o link: goo.gl/tIGy6p Transcrição Dia três mil, seiscentos e um. É meu aniversário. Eu ganhei uma nova goteira. A água podre que escorre do encanamento dos andares de cima se acumula e vai formando uma poça no chão de concreto batido. A água toma conta do cubículo onde passei os últimos anos. A única saída é feita por uma porta de ferro, pesada e enferrujada. Não existem janelas, apenas uma pequena entrada de ventilação, que empurra o ar quente para esse espaço, pequeno e úmido. Mal posso ficar de pé ou me deitar na cama de concreto, construída junto à parede lateral. E é lá que fico por horas. Não posso dizer que não tenho contato com o ambiente externo. Duas vezes por dia, me alimentam com uma ração malcheirosa e um pouco de suco ralo. Um guarda bate à porta e eu tenho alguns segundos para me virar e tapar os olhos para não me cegar. Ele abre e atira a comida para dentro. Ao menos esse processo renova o ar e posso respirar melhor por uma hora ou duas. Além disso, a cada seis meses um médico e um dentista me examinam. Eles me vendam, me apalpam, me jogam aqui e trancam a porta. Eu estou preso por dois motivos. O primeiro é porque tive um mau advogado. O segundo é porque ele ainda tentou ser criativo. Eu sou inocente. Você pode até não acreditar. Honestamente, não me interessa. Você não pode me tirar daqui, mesmo. Quando seu advogado tenta “melhorar a sua situação” alegando insanidade, é isso que acontece, ao menos nessa cidade. Você acaba aqui, vivendo e se alimentando de sombras. Psicopatas e sociopatas... todos ficariam loucos se fossem enclausurados nesse esgoto. Eu, não. Os primeiros anos são difíceis. Mas depois você se acostuma. As gotas que caem do teto se transformam em melodia, a escuridão nos dá muitas horas de sono e a cama de concreto se torna uma pluma. Como

  • [S01E04] Sobre Confiança
    [S01E04] Sobre Confiança
    Duração: 04min | 12/07/2015

    O episódio "Sobre Confiança", de "Crônicas do Fim do Mundo" foi produzido por Caio Salgado. Comentários, críticas e sugestões: caio@chsalgadofoto.com.br ou pelo Twitter: @chsalgado. Leia essas e outras crônicas no Medium. Acesse o link: https://goo.gl/tIGy6p Transcrição Boa tarde. Tudo bem? Para onde a gente vai? Você está confortável? Se importa se eu ligar o som? Eu adoro essa música. Dá uma sensação de tranquilidade. De paz. Eu estava pensando nisso um dia desses. Não, não em paz. Nos sentimentos. Queria descobrir qual deles é o mais importante. O que você acha? Qual o mais forte deles? O amor? O ódio? O medo? Você pode até ter a sua opinião. Ela pode até ser diferente da minha. Para mim tanto faz. Até o fim da nossa conversa, vamos estar na mesma página. O mais sólido dos sentimentos é, sem dúvida, a confiança. Quando a sua mãe se casou com seu pai – se é que eles se casaram - e decidiram morar juntos, todos falam que a decisão é motivada por amor. Entretanto, antes que sua mãe tivesse que lavar as cuecas do seu pai, foi criada uma relação de confiança entre os dois. Amor é só uma forma não palpável de confiança. Como podemos definir objetivamente, confiança é a certeza. A tranquilidade de que alguém irá sempre cumprir o que se espera dele. Por isso, tão complicado como amar, é confiar em alguém. Agora eu te pergunto. Você já confiou em alguém sem sequer conhecer? Não? Ah, eu posso garantir que sim. A quem você entrega seu corpo, seus pertences e seu destino sabendo, no máximo, um nome? E esse nome nem precisa ser verdadeiro. Vou te dar uma dica. Tem estofado gasto e cheira a nicotina. Se confunde em meio a milhares de outros veículos, todos pintados de amarelo, com uma plaquinha em cima. E por que não confiar? Somos todos homens simpáticos, entendemos de futebol, do clima... A gente sabe exatamente o que acontece e onde acontece. Nós já salvamos você em inúmeras situações. Na chuva, atrasado para uma reunião com o cliente, às seis da tarde. E, apesar de eu estar aqui, dando uma infini

  • [S01E03] Déjà Vu
    [S01E03] Déjà Vu
    27/06/2015

    O episódio "Déjà Vu", de "Crônicas do Fim do Mundo" foi produzido por Caio Salgado. Comentários, críticas e sugestões: caio@chsalgadofoto.com.br ou pelo Twitter: @chsalgado. Leia essas e outras crônicas no Medium. Acesse o link: https://goo.gl/tIGy6p Transcrição Você já teve um déjà vu? Se não teve, vai ter. A sensação de “isso já aconteceu comigo antes” ocorre devido a uma falha do nosso cérebro, que identifica cenários parecidos e diz que estamos revivendo a mesma situação. É exatamente essa a impressão que estou tendo agora, ao subir as escadas estreitas de um edifício histórico. O que, nesta cidade, significa um motel caindo aos pedaços e fedendo a mofo. No segundo andar, um aglomerado de policiais cerca uma das portas. Uma fita amarela separa os legistas dos curiosos, ávidos por registrar alguma coisa e obter um mórbido sucesso publicando tudo. Um guarda me identifica e eu não preciso mais me espremer por entre suor e perdigotos. A luz do início da manhã, parcialmente barrada pela persiana, ilumina mais que a lâmpada de tungstênio. Ela ainda teve sorte de poder usar um quarto com janela. Eu olho para ela, dos pés ao pescoço. Preciso acender um cigarro para olhar para seu rosto, coberto por um saco plástico. Seus olhos verdes sem brilho chamam minha atenção porque, nesse exato instante, o que eu sinto não é um déjà vu, é uma lembrança perfeita de quando seus olhos ainda brilhavam. Ela não vive. E a culpa é minha. Mais um trago de cigarro e eu sinto a nicotina descer rasgando a minha garganta. Eu jogo a bituca pela janela enquanto tento voltar ao chão. Meus pés formigam. Todos já perdemos alguém, é verdade. Próximo ou distante. Muita gente morre, todos os dias. Muitos são assassinados ou têm um ataque cardíaco ao atravessar a rua. O que eu torço é para que ninguém morra porque você não fez nada. Porque você achou que era apenas mais uma fraude. Eu preferiria ter motivos para matá-la. Queria eu ter lhe arrancado a vida. Porque não há sensação pior que ser responsável por uma morte. Duas se

  • [S01E02] No Café
    [S01E02] No Café
    12/06/2015

    O episódio "No Café", de "Crônicas do Fim do Mundo" foi produzido por Caio Salgado. Comentários, críticas e sugestões: caio@chsalgadofoto.com.br ou pelo Twitter: @chsalgado. Leia essas e outras crônicas no Medium. Acesse o link: https://goo.gl/tIGy6p Transcrição A cafeteira apita com o vapor de água. A única garçonete em serviço deixa uma xícara cair e se despedaçar no chão. Um senhor se assusta e derruba metade de seu expresso. No fundo do estabelecimento, à penumbra, estou eu, olhando diretamente para a porta de madeira, que não se move. O meu pedido chega. Café preto, sem açúcar. É o momento de esquecer o cheiro de esgoto que toma a cidade e me debruçar em 200 mililitros de calor e amargor. Eu engulo a bebida fervente enquanto olho para a porta, imóvel. O Café dos Andes já foi o melhor do Estado. A pequena entrada, hoje escondida por anúncios de apresentações de strip-tease, atraía turistas interessados em conhecer o pequeno oásis com aroma de café no meio da avenida mais movimentada da cidade. Mas, desde que o Seu Hiroshi faleceu, acho que só eu me sinto confortável aqui. Eu confiro as horas. Sete e quarenta. Eles estão dez minutos atrasados. Eles nunca se atrasam. A porta range antes de se abrir. Eu tiro os olhos do café. Uma jovem morena, alta, e com sapatos vermelhos pede um cappuccino para a viagem. Ela sai. O senhor que derrubara sua bebida há alguns minutos sai. Eu permaneço, olhando para a porta e a porta imóvel. Tento não olhar para o saco de papel que está no chão, ao lado do meu pé esquerdo. Contudo, é impossível ignorar o conteúdo que motivou o encontro dessa manhã. Eu o confiro, pela terceira vez em vinte minutos. Está tudo lá. Exceto eles. Quando marcamos reuniões como esta, no fim das contas, queremos que elas não aconteçam. Queremos que elas não aconteçam até que alguém se atrasa. Queremos que elas não aconteçam até que estamos aqui, às sete e cinquenta, torcendo pelo ranger da porta. Um estalo me chama a atenção. Dessa vez não foi a xícara de café que caiu. Na rua, gritos. Mais

  • [S01E01] Próxima Partida (piloto)
    [S01E01] Próxima Partida (piloto)
    30/05/2015

    O episódio "Próxima Partida", de "Crônicas do Fim do Mundo" foi produzido por Caio Salgado. Comentários, críticas e sugestões: caio@chsalgadofoto.com.br ou pelo Twitter: @chsalgado. Leia essas e outras crônicas no Medium. Acesse o link: https://goo.gl/tIGy6p Transcrição A chuva começa a cair lentamente. Eu a permito molhar meu sobretudo. Uma ou duas gotas caem sobre o pequeno tíquete de papel. Eu leio o meu destino e vislumbro o futuro, longe de tudo o que construí, longe de tudo o que eu sou. Na mochila: objetos genéricos e roupas compradas em lojas de conveniência baratas. Na mente: nada. Meu corpo está anestesiado. Uma poça d’água provoca a única sensação que sou capaz de ter, ao encharcar a palmilha do meu tênis. Faltam quinze minutos e, se você soubesse de verdade tudo o que passei, acharia um absurdo eu estar sentado nesse banco de madeira sob a chuva. Porém, nada importa desde que seus olhos verdes deixaram de piscar ao meu lado. Eu vim de longe, e para mais longe irei. Desembarcar exatamente da mesma maneira que cheguei aqui. Desconhecido, vindo de lugar nenhum. É essa a minha vida. Uma viatura da polícia passa com o giroflex ligado e interrompe meus pensamentos. Atrás de mim, o apito do trem indica que é hora de vislumbrar pela última vez a cidadezinha de jardins sempre verdes e pôr-do-sol reluzente. Eu me permito prantear uma lágrima ou duas. Nada além disso. Afinal, ela foi a que mais gostei. A que mais gostei de conversar. A que mais gostei de beijar. A que mais gostei de amar. A que mais gostei de, ao som de Mozart, colocar um saco plástico sobre sua cabeça e ver seus olhos implorarem por mais um sopro de vida. Mais duas viaturas passam. É hora de ir.

Informações: